Delicia.

Ela surge lindamente burra e cheia de ideias.

O garçom se lembra que há vértebras em sua cervical e sua figura mediana cresce 25 centímetros.

Esse comportamento dá um traço de dignidade a um ambiente frequentado por gente duvidosa em suas certezas.

Há bastante razão para deflagrar uma revolução, pensava enquanto um cliente com alguma razão estava impaciente a chamar sua atenção.

- O cardápio !

- Claro, aqui !

Respondeu e seguiu em sua linha de raciocínio. Revolução. Metralhar a mediocridade de sua vida. Detonar explosivos atômicos no atol do tédio.

A voz sustenida de alguém que parece estar sempre molhada seca a garganta do garçom-pensador.

- Tem uma caneta?

É a própria Pandora

E ele um Epimeteu com fome daquela fêmea.

“Sim” , disse entregando a caneta a ela.

Assim a madrugada foi acordando sonolenta naquela noite morna.

Tons de vozes subindo. Alguns saudosistas estranhando a falta de neblina da fumaça dos cigarros que a lei aboliu em recintos fechados.

Era pra ser mais uma noite apenas. Mas não foi.

Na missão de recuperar sua caneta e quem sabe conseguir algo a mais vai se aproximando da mesa e ouve a voz sustenida que devido a embriaguez vai ficando agora dissonante narrando seu infortúnio, que seria o dele também.

- Eu sei que não sou muito inteligente,mas eu tenho sentimento…

…quero alguém que me “aseite” como eu sou…

Era como se um cupido dantesco lhe acertasse o peito, ficou um pouco desconsertado com o próprio pensamento por ‘dantesco’ lhe parecer meio gay…a narração seguiu-se.

- Não dei! Eu queria dar, mas não dei. Eu tava morrendo de vontade de dar,mas não dei!

O garçom, não sabemos agora se mais ou menos motivado a iniciar sua revolução, mergulhado num vazio existencial inundado pela voz sustenida-dissonante dizendo que havia se masturbado com seu pen drive para não ficar na vontade e não sucumbir aqueles que só querem se aproveitar dos outros.

Tudo é perda. Perdeu pro pen drive. Perdeu sua caneta. Perdeu-se em si.